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SEGUNDA FILOSÓFICA

Ana
5 de out.
6 min de leitura

Não, eu não sou petista.

Tenho, sim, uma inclinação mais à esquerda em algumas questões sociais, mas estou longe de me resumir a um partido.


Porque eu não sou um partido.


Sou alguém tentando entender o que considero melhor para o país em que vivo e, principalmente, para o país que meus filhos vão receber.


E talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta dificuldade com essa necessidade de escolher um lado e defendê-lo inteiro.

Nos governos do PT, por exemplo, sempre me chamou atenção o olhar mais forte para a proteção social: transferência de renda, políticas de combate à pobreza, acesso à educação e a preocupação de não deixar uma parcela da população completamente desamparada.

No período mais recente, a pobreza caiu de 21,7% em 2023 para 20,9% em 2024, segundo o Banco Mundial. O mesmo levantamento aponta um mercado de trabalho forte, com aumento real dos salários. Já no segundo trimestre de 2026, o desemprego chegou a 5,4%, segundo o IBGE. Banco Mundial


Mas reconhecer isso não significa deixar de enxergar problemas.


Política social, para mim, precisa proteger sem fazer com que sair dela pareça economicamente pior do que permanecer.

Eu acredito em amparar quem precisa.

Mas acredito também que o objetivo deveria ser fazer com que cada vez mais pessoas deixem de precisar desse amparo.

Quando assistência se transforma em dependência permanente, alguma coisa no desenho da política pública precisa ser discutida.


E talvez aqui já apareça uma das contradições mais interessantes dessa discussão.


No governo Jair Bolsonaro também existiram políticas sociais importantes. O Auxílio Emergencial, durante a pandemia, teve impacto enorme. Segundo o Banco Mundial, a pobreza caiu de 26,2% em 2019 para 18,7% em 2020, em grande parte por causa dessas transferências. Quando o programa foi reduzido, a pobreza voltou a subir em 2021. Banco Mundial

Ou seja: até um governo identificado com uma agenda econômica mais liberal precisou recorrer a uma grande política de transferência de renda diante de uma emergência.

Talvez isso já mostre que a realidade não cabe tão facilmente nas caixinhas de “esquerda” e “direita”.


No fim do governo Bolsonaro, o desemprego estava em 7,9% no último trimestre de 2022 e o PIB daquele ano cresceu 2,9%, depois do choque enorme provocado pela pandemia. Agência de Notícias IBGE


No governo Lula atual, emprego e renda também tiveram resultados fortes, mas a questão fiscal continua me preocupando. A dívida bruta subiu de 73,8% para 76,5% do PIB em 2024. Banco Mundial


E existe ainda uma coisa mais simples, mais cotidiana e talvez mais perceptível para quem está pagando supermercado, escola, serviços, aluguel e contas todos os meses: o custo de vida.


Em agosto de 2026, o IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,22%. Isso não significa, por si só, que todo brasileiro perdeu poder de compra, inclusive porque os dados mostram crescimento do salário real médio em parte do período. Mas significa que os preços continuaram subindo e que, para quem vive com orçamento apertado, essa pressão é muito concreta. IBGE


É possível reconhecer melhora no emprego e na renda e, ao mesmo tempo, admitir que muita gente olha para o próprio bolso e sente que o dinheiro continua curto.


Agora, saindo dos números e entrando naquilo que é mais pessoal:

o que me afasta de setores da extrema direita é uma visão que, muitas vezes, considero rígida demais sobre como as pessoas deveriam viver.


Incomoda-me quando religião se transforma em parâmetro para a vida de quem não compartilha daquela fé.

Quando orientação sexual vira julgamento moral.

Quando família parece ter apenas um formato aceitável.

Quando existe uma definição quase “careta” do certo e do errado, como se a vida pudesse ser dividida perfeitamente em duas gavetas.


Porque eu não acredito que possa.

Existem limites, claro.

Existem leis, ética, responsabilidade e respeito pelo outro.


Mas existe também uma quantidade enorme de vida acontecendo entre o “certo” e o “errado”.

E liberdade, para mim, também passa pelo direito de cada pessoa construir a própria vida sem precisar obedecer às convicções religiosas ou morais de outra.


Ao mesmo tempo, existe algo em parte da esquerda que também me incomoda profundamente.


É essa facilidade de colocar o empresário no papel do explorador.

Como se gerar lucro fosse, por definição, explorar alguém.

Eu sou empresária.

E sei perfeitamente que existem empresários ruins.

Assim como existem funcionários ruins, políticos ruins, médicos ruins, professores ruins e pessoas ruins em qualquer lugar.

Mas também existem empresários que arriscam patrimônio, geram empregos, pagam salários, desenvolvem pessoas, movimentam a economia e tentam construir ambientes mais justos.

Empregador e empregado não precisam ser inimigos.


Proteção social e incentivo ao trabalho também não deveriam ser adversários.


Eu acredito que quem está vulnerável precisa de ajuda.


Mas vulnerabilidade, por si só, não transforma ninguém automaticamente em bom.

Assim como dinheiro, empresa ou patrimônio não transformam alguém automaticamente em mau.


Caráter não deveria ser medido pela classe social, pela ideologia ou pela conta bancária.

Talvez devêssemos olhar menos para os rótulos e mais para o histórico.

Para aquilo que a pessoa fez quando pôde escolher.

Para a maneira como tratou quem tinha menos poder.

Para como se comportou quando ninguém estava olhando.

Talvez esse seja um dos meus maiores incômodos com a política atual:

parece que precisamos escolher um pacote inteiro.


E eu não quero um pacote.


Quero ter liberdade para reconhecer uma boa política social da esquerda e, ao mesmo tempo, defender quem empreende, gera emprego, renda e oportunidade.


Quero defender liberdade individual sem achar que liberdade significa ausência de responsabilidade.

Quero acreditar em proteção social sem acreditar que o Estado deva ocupar todos os espaços da vida.

Quero defender o empreendedorismo sem imaginar que o mercado, sozinho, seja capaz de resolver todas as desigualdades.


Talvez parte dessa inimizade entre partidos e, pior, entre pessoas venha justamente dessa obrigação de transformar dois lados diferentes em dois lados inimigos.

Discordância não deveria significar guerra.


E, chegando ao segundo turno, eu também preciso fazer uma escolha.


Eu vou votar em Lula.

Não porque eu seja fã.

Não porque eu o admire.

Não porque tenha esquecido os erros, as contradições ou tudo aquilo que me incomoda no PT.


Vou votar porque, entre as duas opções que chegaram ao segundo turno, Flávio Bolsonaro não me transmite, hoje, aquilo que eu considero necessário para assumir a Presidência da República.


Isso é uma avaliação minha.

Fator que pesa na minha decisão.


As eleições de 2026 deram ao PL um espaço enorme no Congresso. O partido elegeu 121 deputados federais e terá 28 senadores a partir de 2027, tornando-se a maior bancada partidária no Senado e uma força central na Câmara. Portal da Câmara dos Deputados


Para mim, isso já representa uma presença suficientemente forte desse campo político no Legislativo.


E há também um incômodo pessoal com a ideia de uma proximidade excessiva com qualquer potência estrangeira seja Estados Unidos, China ou qualquer outra.

Política externa, na minha visão, precisa começar por uma pergunta simples: O que é melhor para o Brasil?


Não quero a sensação de que o país está “... esse imóvel tá para alugar... ” ideologicamente para ninguém.

A parte mais difícil da democracia: votar não é encontrar alguém que represente tudo aquilo que somos.

Às vezes é olhar para as opções reais, reconhecer méritos e defeitos dos dois lados e decidir qual delas, naquele momento, faz mais sentido para nós.

No PT, eu reconheço a proteção social, a redução recente da pobreza, o investimento em educação e o fortalecimento do mercado de trabalho.


Mas me preocupam a situação fiscal, o custo de vida, o risco de políticas sociais sem uma porta clara de saída e a tendência, presente em parte da esquerda, de tratar o empresário como antagonista.


No bolsonarismo, reconheço a defesa do empreendedorismo, de menor intervenção estatal e de maior liberdade econômica.

Mas me incomodam o conservadorismo moral, a mistura entre religião e política, a rigidez sobre família, sexualidade e comportamento e uma concepção de liberdade que, algumas vezes, parece terminar exatamente onde começa a liberdade de quem pensa ou vive diferente.



Sem paixão partidária.

Sem transformar político em ídolo.

E, principalmente, sem transformar quem escolheu diferente em alguém moralmente inferior.

Porque, depois que a eleição acabar, o Brasil continuará sendo de todos nós.


No fim, não importa quem ganhar.

Quer dizer…

importa.

Claro que importa.


Mas talvez exista algo ainda mais importante: Sempre haverá resistência.

Ouvi essa frase hoje de uma pessoa querida.

Ela, por sua vez, ouviu de outra pessoa.

E achei bonito pensar nisso.

Uma ideia que passa de alguém para alguém e vai contaminando, dessa vez de um jeito bom.


Sempre haverá resistência.

Resistência ao autoritarismo.

À intolerância.

À injustiça.

À tentativa de transformar diferenças em inimigos.


Independentemente de quem ocupe o poder, sempre haverá alguém questionando.

Pensando.

Falando.

Escrevendo.

Educando.

Criando.

Discordando.


E isso nos impeça de perder completamente a esperança.

Porque governos passam.

Ideologias mudam.

O poder troca de mãos.


Mas, enquanto houver gente disposta a pensar, a questionar e a não aceitar silenciosamente aquilo que considera errado:


Sempre haverá resistência.

   

   

   

 
 
 

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