"do avesso"

Genuinamente apareceu enquanto eu me procurava.
E, mais: ainda me procuro.
Com a terrível sensação de que nunca vou me encontrar.
Porque, talvez, eu esteja nas perguntas não feitas...
Nas frases não ditas, nas ideias impensadas.
Nas ações não calculadas.
Nunca procurei me definir.
A definição limita as possibilidades;
a dúvida as expande, permite.
E, particularmente,
sempre gostei da sensação de liberdade...
de poder ser além de um estereótipo.
Mas, fugindo da prisão, fui encontrada pela loucura...
— Sua louca!
Não ouvi uma vez, mas várias...
De maneira gentil, engraçada, cruel...
Nas mais diversas intenções, entonações...
E tenho percebido, ao longo dos anos, que...
Talvez eu seja...
Louca por dançar na chuva,
por acampar, me aventurar...
Dormir mal e ver o sol raiar.
Admirar a lua, contar as estrelas...
Beber, de vez em quando, até a noite desistir de me esperar...
Louca por ir num show em que não conheço nenhuma música...
E cantar!Louca por ser capaz de dançar,
ainda que o mundo só saiba brigar...
Louca por amar a vida e por me encantar por coisas bobas,
como uma joaninha que pousa na flor
ou mandar cartas para alguém que nunca conversou comigo...
Sou louca por simplesmente amar,
amar a vida de uma forma tão intensa que chega a me amedrontar...
Por ser tão diferente, por não me enquadrar.
Não gosto do concreto, dos dizeres exatos,
do comportamento esperado.
Que a loucura me acompanhe
Que o medo nunca me convença a caber
e que o avesso, nuca peça licença,
para florescer,
Mesmo onde tudo pareça normal.
Ana


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